
Sylvia – American Ballet Theatre
Crédito: Rosalie O’Connor
Resumo importante com contexto histórico (para não esquecer):
- Estreia: 1876
- Música: Léo Delibes
- Inspirado na mitologia grega (ninfas, Diana, Eros)
- Um ballet que foge da fragilidade romântica
Oie bailarinas & bailarinos!
Hoje a gente vai começar aqui uma série muuuito importante e muito legal: estudo sobre ballets de repertório. Se você está na área da dança, especialmente do ballet, com certeza você já ouviu falar sobre eles!
E sim, sem dúvida, você precisa saber o que são e os principais ainda que você faça ballet por hobbie porque são histórias importantes e que ajudam a entender não só sobre o ballet, mas sobre o contexto cultural e artístico em que eles foram criados. Sem contar nas músicas, né? Nada melhor do que ouvir uma música e falar “essa é do ballet X”.
O que é um ballet de repertório?
Antes de tudo, como esse é o primeiro post dessa série, não custa nada lembrar o que é um ballet de repertório, né?
Tem gente que pode confundir ballet de repertório com uma espécie de fábula ou conto de fadas e, muitas vezes, são inspirados em algumas histórias assim mesmo (como Cinderella, A Bela Adormecida e outros). Mas, o ballet de repertório simboliza mais do que uma história em si, ele faz parte da evolução do ballet clássico, da sua trajetória enquanto arte.
O conceito de ballet de repertório tem raízes no ballet d’action, termo francês associado às ideias de Jean-Georges Noverre, que defendia o ballet como narrativa expressiva, construída por meio do movimento.
A diferença e o impacto do ballet de repertório é que ele organiza essa história utilizando apenas a dança, a música e a mímica. Sua existência também está muito ligada ao movimento de formalizar a dança clássica que aconteceu especialmente na França e mais ainda com a criação da Academia Real de Dança de Paris.
As grandes variações de repertório, como conhecemos hoje, se consolidaram especialmente a partir do século XIX, com o fortalecimento do ballet narrativo em atos.
Com certeza, você deve estar se perguntando: qual o primeiro ballet de repertório? Não se sabe ao certo a resposta para essa pergunta rs. Mas, entre a lista dos mais antigos, nós temos La Sylphide e Giselle.
Agora que você já sabe um pouco mais sobre o que se trata um ballet de repertório, vamos para a história de hoje…
Sylvia – técnica, independência e a mulher caçadora no repertório clássico

© Dave Morgan, courtesy the Royal Opera House.
Sylvia, que também pode ser encontrado como La nymphe de Diane, é um ballet de repertório originalmente coreografado por Louis Mérante para música de Léo Delibes (sim, o mesmo de Coppélia!!) no ano de 1876.
Este é um ballet que se destaca por sua história com base na mitologia grega. Ele se passa em um universo de ninfas, caçadoras, deuses e desejos, tendo como figura central Sylvia – uma ninfa devota à deusa Diana, símbolo da castidade, da caça e da independência feminina.
Desde sua criação, Sylvia já se distanciava do romantismo etéreo que dominava o ballet do século XIX. Não há aqui sílfides frágeis ou heroínas que desmaiam de amor. O corpo feminino em Sylvia é ativo, ágil, preciso – e, sobretudo, decidido.
Personagens principais
- Sylvia — ninfa caçadora, seguidora da deusa Diana
- Aminta — pastor apaixonado por Sylvia
- Diana — deusa da caça e da castidade
- Eros (Cupido) — deus do amor
- Orion — caçador que deseja Sylvia à força
- Ninfas e caçadores — corpo de baile que constrói o universo mítico
Resumo da história
Ato I
A história começa em uma floresta sagrada dedicada à deusa Diana. Sylvia aparece cercada por outras ninfas caçadoras, todas comprometidas com a castidade, a independência e a vida dedicada à caça.
Aminta, um jovem pastor, observa Sylvia à distância e se apaixona por ela. Encantado, ele tenta se aproximar, mas Sylvia rejeita qualquer manifestação de amor. Para ela, sentimentos românticos representam uma ameaça à sua liberdade e ao juramento feito à deusa Diana.
O conflito se intensifica quando Eros, o deus do amor, entra em cena. Sylvia o despreza e chega a apontar seu arco para Eros, enquanto Aminta tenta proteger a divindade e é ferido. Eros, então, ataca Sylvia, que é atingida, porém não fatalmente.
Pouco depois, Orion, um caçador rude e dominador, aparece observando Sylvia e celebrando o inconsciente Aminta. Sylvia, por sua vez, lamenta sua vítima e, então, é sequestrada por Orion. Camponeses se entristecem pela perda de Aminta. Eros se camufla e revive o pastor, revela sua identidade e informa Aminta sobre as ações de Orion.
Ato II
O segundo ato se passa na ilha de Orion, um ambiente festivo e perigoso ao mesmo tempo. Sylvia está aprisionada, ela permanece inquieta, distante e consciente de sua condição. Orion tenta seduzi-la, mas não conquista sua vontade. Sylvia consegue embriagar seu captor que está em posse de sua flecha para, então, apelar apara Eros em busca de ajuda. Ele aparece e mostra a Sylvia uma visão de Aminta, que está à sua espera. Com a ajuda de Eros, Sylvia consegue escapar da ilha para o templo de Diana.
Ato III
No último ato, Sylvia retorna ao templo de Diana acompanhada de Eros. Aminta a aguarda. Depois de alguns momentos de alegria, Orion aparece buscando por Sylvia. Orion e Aminta lutam. Sylvia se esconde no santuário de Diana e Orion tenta segui-la. Diana, inconformada com tal ato, fere Orion e nega a união de Aminta e Sylvia. Com a influência de Eros, Diana relembra seu próprio amor jovem de Endymion, também um pastor e, finalmente, muda de ideia. Sylvia e Aminta se reunem com aceitação das divindades.
*Vale lembrar que as histórias podem passar por adaptações, ok? Em alguns ballets, inclusive, consideram apenas dois atos. Mas, em geral, a base da história é essa!

© Dave Morgan, courtesy the Royal Opera House.
Curiosidades sobre Sylvia: inspirações, música e história nos bastidores
Inspiração literária e mitológica
O ballet Sylvia foi inspirado no poema pastoral “Aminta”, do escritor italiano Torquato Tasso, publicado no século XVI. A obra mistura ideal bucólico, mitologia clássica e conflitos entre dever, liberdade e amor — temas que foram transpostos para o palco em linguagem corporal.
Além do poema, o ballet bebe diretamente da mitologia grega, especialmente:
- Diana (Ártemis), deusa da caça e da castidade
- Eros (Cupido), símbolo do desejo inevitável
- Ninfas caçadoras, figuras femininas ligadas à natureza e à autonomia
Essa base mitológica é essencial para entender por que Sylvia não se encaixa no romantismo frágil tradicional.
A música de Léo Delibes
A música de Sylvia é considerada uma das grandes joias do ballet clássico. Delibes foi responsável por elevar o papel da música no ballet, compondo partituras que não apenas acompanham a dança, mas dialogam com a narrativa.
Curiosidade importante:
O compositor Pyotr Ilyich Tchaikovsky admirava profundamente a música de Sylvia. Em cartas e registros biográficos, ele reconhece a sofisticação musical do ballet, e estudiosos apontam que esse contato influenciou sua própria forma de pensar a música para dança, especialmente em obras posteriores como O Lago dos Cisnes.
A partitura de Sylvia se destaca por:
- riqueza melódica
- clareza rítmica (especialmente nos trechos de caça e allegro)
- capacidade de sustentar personagens fortes em cena
Coreografia e estreia
A estreia de Sylvia aconteceu em 1876, no Palais Garnier, em Paris, com coreografia de Louis Mérante, então maître de ballet da Ópera de Paris.
Na época, o ballet não teve grande sucesso imediato. Muitos críticos acharam a narrativa confusa e a personagem feminina “dura demais” para os padrões do século XIX — o que, ironicamente, hoje é exatamente o que torna Sylvia tão interessante.
Considerações Finais
Bom, gente, deu para perceber que Sylvia é um ballet riquíssimo, né? Eu, particularmente, tenho criado um amor por ele – pela história, pelas coreografias, pela música. Ah, sem contar os figurinos que, pelo amoooor de Deus, são maravilhosos.
Vou deixar aqui para vocês algumas referências sobre a história e também alguns vídeos. Simplesmente vejam a variação de Sylvia – linda, maravilhosa e difícil rs.
Não esqueçam de me contar o que acharam, se já conheciam e qual ballet querem saber mais detalhes!
Este texto faz parte da série “Estudando ballets de repertório”, baseada em pesquisa histórica, análise artística e vivência prática na dança.
FONTES DE PESQUISA:
- Wikipedia (Sylvia): https://pt.wikipedia.org/wiki/Sylvia_(balé)#Ato_I:_uma_madeira_sagrada
- https://www.theatreinparis.com/en/show/sylvia-at-opera-palais-garnier
- https://www.scribd.com/document/293990386/Sylvia
VÍDEOS: