Discos imaginais: a transformação dos 30 e poucos
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Discos imaginais: a transformação dos 30 e poucos

Eu tenho vivenciado, já há alguns anos, uma fase de transição. Mas eu sempre tenho um certo receio de usar esse termo e as pessoas imaginarem que eu simplesmente mudei da água para o vinho (meio no estilo da nova trend em que garotas acordam um dia e resolvem mudar tudo sobre elas). Só que, na verdade, olhando bem lá no fundo, esse processo não foi e nem tem sido tão assim.

Eu não mudei “da água para o vinho” – talvez, eu tenha só transbordado o que já tava dentro de mim. E eu acho que isso realmente torna o processo um pouco mais complicado do que simplesmente sair de 8 para 80 (ou vice-versa).

Eu vejo relatos de pessoas contando da sua transformação, que eram extremamente sociáveis, gostavam de sair o tempo todo e agora se sentem em paz em casa, por exemplo. Pessoas que comiam mal e não se exercitavam e agora não vivem sem uma corridinha às 5h da manhã e sua salada todo dia. Ou então, pessoas que trabalhavam em uma área tipo engenharia e agora são felizes e vivem plenas fazendo arte, abriram uma cafeteria…

Mas e eu?
Eu não saí de x pra y.
Não saí de uma cidade capital para morar no interior.
Nem troquei um trabalho cansativo para pintar quadros ou vice-versa.

No fundo, e aí está: eu continuo sendo eu.
Ao mesmo tempo que eu sinto que mudei, alguma coisa mudou.
O ar? A idade? As pessoas?

Ok, sejamos justas – muito mais coisas mudaram ao longo dos últimos dois, três anos:

  • eu diminuí e parei de trabalhar como social media freelancer
  • eu tive contato com trabalho de desenvolvimento de softwares
  • eu quase fiquei investindo apenas em fotografia artística
  • eu quis viver apenas de crochê e bordado e feirinhas
  • eu resolvi voltar para o curso técnico de ballet
  • eu comecei a dar aula de dança

Acho que vocês podem dizer, afinal, como é que eu não mudei, né?

Só que isso tudo já fazia parte de mim. Não troquei de área exatamente. Não mudei de cidade. Não deixei de fazer coisas que eu já gostava. Mas, ao mesmo tempo, é como se tivesse nascido de novo.

Todo esse processo foi e ainda continua sendo exatamente como uma metamorfose – eu sei, soa bem clichê. E aqui eu faço um parêntese, porque eu imagino a metamorfose justamente assim: tudo que a gente tem lá dentro, bem dentro, transborda, floresce. Não sei exatamente se é como muita gente descreve, como mudança radical, sabe? Mesmo que seja uma mudança radical, eu sempre acredito que já tinha um pouco dessa essência ali rs.

A lagarta não vira outra coisa, ela já estava destinada a se transformar em borboleta. E a biologia explica: a lagarta já carrega os chamados discos imaginais, pequenos grupos de células que se formam ainda no ovo e que, durante a metamorfose, dão origem às asas, às antenas e às pernas da borboleta. Dentro do casulo, muita coisa da lagarta realmente se desfaz, mas o que vira borboleta já estava lá o tempo todo.

E aí, a questão é que eu acho que o processo (no meu caso, em particular) vem muito mais de me encontrar no mundo do que me encontrar em mim. De tirar, de verdade, as amarras. Acho que é como a borboleta – e eu, talvez, já tenha passado a fase de desfazer o que precisa no casulo, mas ainda estou no receio de sair dele. De me mostrar essencialmente, sem medos. Sem criar uma versão de mim que, ainda que já tenha sido muito próxima do que sou, me dava um trabalhão para “sustentar”, entende?

E talvez seja justamente isso que mais me assusta: perceber que, durante muito tempo, eu estive tão preocupada em descobrir o que queria ser que quase não me dei conta de que já era alguma coisa. Ou melhor, já era muitas coisas.

Existe uma diferença enorme entre não saber quem se é e não saber como ser quem se é. E acho que tenho vivido muito mais a segunda situação.

Sempre tive a sensação de que precisava encontrar uma espécie de fórmula. Uma profissão que fizesse sentido, uma rotina que funcionasse, um estilo de vida que combinasse comigo. Como se, em algum momento, todas as peças fossem finalmente se encaixar e eu pudesse, enfim, dizer: é isso. Encontrei meu lugar.

Só que, quanto mais penso nisso, mais percebo que eu nunca precisei encontrar uma única coisa. Gosto de escrever, de dançar, de fotografar, de estudar, de criar. Gosto de tantas coisas que, às vezes, a simples ideia de escolher uma delas parece uma maneira de abandonar todas as outras.

E acho que, por anos, eu confundi essa multiplicidade com falta de direção, como se mudar de ideia fosse sinal de que eu ainda não havia descoberto o que realmente queria. Só agora comecei a considerar a possibilidade de que não exista contradição alguma em querer viver várias vidas dentro de uma só.

Mas, sim, a verdade é que existe uma parte dessa história que ainda não consegui resolver: o medo de me permitir viver tudo isso.

Porque é relativamente confortável experimentar coisas novas enquanto elas permanecem no campo das possibilidades. Posso começar um projeto, estudar um assunto, descobrir uma nova paixão e até imaginar como seria viver disso. Difícil mesmo é assumir essas escolhas, permitir que elas façam parte de quem sou e, principalmente, deixar que outras pessoas também as enxerguem.

E então, quem sabe sair do casulo seja justamente isso: não necessariamente abandonar tudo o que conheço, mas aceitar que não preciso mais me esconder atrás de versões de mim que já não fazem tanto sentido, nem justificar cada mudança de rota, cada interesse novo, cada desejo que parece não combinar com o anterior.

Sobretudo, meu desafio é tentar aceitar que nem tudo precisa se transformar em alguma coisa produtiva, rentável ou definitiva, e que algumas coisas podem simplesmente existir porque me fazem feliz. Eu posso escrever sem transformar cada texto em um projeto e fotografar sem necessariamente desejar que aquilo se torne meu trabalho.

Eu não preciso transformar todos os meus interesses em respostas para a pergunta sobre quem sou.

Ainda não sei exatamente em que momento vou me sentir pronta para sair desse casulo. Provavelmente, essa é uma daquelas coisas que a gente só descobre quando finalmente dá o primeiro passo. Felizmente, se existe algo que tenho aprendido ao longo desses últimos anos, é que não preciso esperar por uma baita transformação para começar a viver de outra maneira.

Afinal, a borboleta não precisa saber exatamente para onde vai antes de abrir as asas. E eu, que por tanto tempo achei que precisava me tornar alguém diferente, começo a entender que talvez tudo o que eu quisesse fosse a liberdade de continuar sendo eu, só que de outro jeito.

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